o que dizem os outros

Abril 18, 2007 at 4:20 pm | In Uncategorized | Leave a Comment

*Construir um País* 

*Precisa-se de matéria prima para construir um País * 

*Eduardo Prado Coelho – in «Público» * 

 

 

A crença geral anterior era de que Santana Lopes não servia, bem comoCavaco, Durão e Guterres. Agora dizemos que Sócrates não serve. E o que vierdepois de Sócrates também não servirá para nada. Por isso começo a suspeitarque o problema não está no trapalhão que foi Santana Lopes ou na farsa que éo Sócrates. 

O problema está
em nós. Nós como povo. Nós como matéria-prima de um país.
Porque pertenço a um país onde a ESPERTEZA é a moeda sempre valorizada,tanto ou mais do que o euro. Um país onde ficar rico da noite para o dia éuma virtude mais apreciada do que formar uma família baseada em valores erespeito aos demais. Pertenço a um país onde, lamentavelmente, os jornaisjamais poderão ser vendidos como em outros países, isto é, pondo umas caixasnos passeios onde se paga por um só jornal E SE TIRA UM SÓ JORNAL,DEIXANDO-SE OS DEMAIS ONDE ESTÃO. 

Pertenço ao país onde as EMPRESAS PRIVADAS são fornecedoras particulares dosseus empregados pouco honestos, que levam para casa, como se fosse correcto,folhas de papel, lápis, canetas, clips e tudo o que possa ser útil para ostrabalhos de escola dos filhos… e para eles mesmos. Pertenço a um paísonde as pessoas se sentem espertas porque conseguiram comprar umdescodificador falso da TV Cabo, onde se defrauda a declaração de IRS paranão pagar ou pagar menos impostos. 

Pertenço a um país onde a falta de pontualidade é um hábito. 

Onde os directores das empresas não valorizam o capital humano. 

Onde há pouco interesse pela ecologia, onde as pessoas atiram lixo nas ruase depois reclamam do governo por não limpar os esgotos. 

Onde pessoas se queixam que a luz e a água são serviços caros. 

Onde não existe a cultura pela leitura (onde os nossos jovens dizem que é“muito chato ter que ler”) e não há consciência nem memória política,histórica nem económica. 

Onde nossos políticos trabalham dois dias por semana para aprovar projectose leis que só servem para caçar os pobres, arreliar a classe média ebeneficiar a alguns. 

Pertenço a um país onde as cartas de condução e as declarações médicas podemser “compradas”, sem se fazer qualquer exame. Um país onde uma pessoa deidade avançada, ou uma mulher com uma criança nos braços, ou um inválido,fica em pé no autocarro, enquanto a pessoa que está sentada finge que dormepara não lhe dar o lugar. Um país no qual a prioridade de passagem é para ocarro e não para o peão. Um país onde fazemos muitas coisas erradas, masestamos sempre a criticar os nossos governantes. 

Quanto mais analiso os defeitos de Santana Lopes e de Sócrates, melhor mesinto como pessoa, apesar de que ainda ontem corrompi um guarda de trânsitopara não ser multado. 

Quanto mais digo o quanto o Cavaco é culpado, melhor sou eu como português,apesar de que ainda hoje pela manhã explorei um cliente que confiava em mim,o que me ajudou a pagar algumas dívidas. Não. Não. Não. Já basta. 

Como “matéria-prima” de um país, temos muitas coisas boas, mas falta muitopara sermos os homens e as mulheres que nosso país precisa. Esses defeitos,essa “CHICO-ESPERTERTICE PORTUGUESA” congénita, essa desonestidade empequena escala, que depois cresce e evolui até converter-se em casosescandalosos na política, essa falta de qualidade humana, mais do queSantana, Guterres, Cavaco ou Sócrates, é que é real e honestamente ruim,porque todos eles são portugueses como nós, ELEITOS POR NÓS. Nascidos aqui,não em outra parte… 

Fico triste. Porque, ainda que Sócrates fosse embora hoje mesmo, o próximoque o suceder terá que continuar trabalhando com a mesma matéria-primadefeituosa que, como povo, somos nós mesmos. E não poderá fazer nada… Nãotenho nenhuma garantia de que alguém possa fazer melhor, mas enquanto alguémnão sinalizar um caminho destinado a erradicar primeiro os vícios que temoscomo povo, ninguém servirá. Nem serviu Santana, nem serviu Guterres, nãoserviu Cavaco, e nem serve Sócrates, nem servirá o que vier. Qual é aalternativa? 

Precisamos de mais um ditador, para que nos faça cumprir a lei com a força epor meio do terror? Aqui falta outra coisa. E enquanto essa “outra coisa”não comece a surgir de baixo para cima, ou de cima para baixo, ou do centropara os lados, ou como queiram, seguiremos igualmente condenados, igualmenteestancados….igualmente abusados! 

É muito bom ser português. Mas quando essa portugalidade autóctone começa aser um empecilho às nossas possibilidades de desenvolvimento como Nação,então tudo muda… 

Não esperemos acender uma vela a todos os santos, a ver se nos mandam umMessias. 

Nós temos que mudar. Um novo governante com os mesmos portugueses nadapoderá fazer. Está muito claro… Somos nós que temos que mudar. Sim, creioque isto encaixa muito bem em tudo o que anda a nos acontecer: desculpamos amediocridade de programas de televisão nefastos e francamente tolerantes como fracasso. É a indústria da desculpa e da estupidez. 

Agora, depois desta mensagem, francamente decidi procurar o responsável, nãopara castigá-lo, senão para exigir-lhe (sim, exigir-lhe) que melhore seucomportamento e que não se faça de mouco, de desentendido. Sim, decideprocurar o responsável e ESTOU SEGURO QUE O ENCONTRAREI QUANDO ME OLHAR NOESPELHO. AÍ ESTÁ. NÃO PRECISO PROCURÁ-LO
EM OUTRO LADO.
 

*E você, o que pensa?…. MEDITE!*

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